É difícil ser mãe de menino em uma sociedade onde reina a masculinidade tóxica

Se queremos homens que sejam pais, parceiros, que cuidem e que queiram ocupar seu espaço na divisão de tarefas precisamos construir isso desde o berçário

Por Tayná Leite

Ser mãe de um menino me fez questionar a relação dos homens com o feminismo. Várias questões me assombraram quando eu descobri que teria um filho homem: e se ele se tornar o cara que pega a mulher e a objetifica? O cara que ilude? O que manda nudes sem autorização?

Escrevi mais sobre isso em um artigo em que refletia sobre como me tornar mãe de um menino mudou minha relação tanto como pesquisadora apaixonada pela área de diversidade e inclusão quanto como militante e ativista pelos direitos de mulheres e crianças.

Nele, eu indicava o maravilhoso documentário The Mask You Live In, que mostra o quanto a construção de uma masculinidade tóxica faz refém, além das meninas, também os meninos.

Enquanto pesquisadora do cuidado e, especificamente, de modelos de maternidade e paternidade, em especial as não tradicionais, o olhar e o interesse para o diálogo entre a construção da masculinidade e a da feminilidade, suas performances e normatividades só aumentou e, graças à deusa, hoje temos muito mais material para debater este tema.

E também para compartilhar com os homens que querem ser aliados da luta pela igualdade de gênero e os que querem repensar seus parâmetros de relacionamento e afetividades.

É comum, quando faço palestras ou treinamentos sobre qualquer questão relacionada a gênero, que me perguntem: “e os homens?”. A verdade é que sempre brincamos que não existe nada mais frágil que ego de um homem (especialmente heterossexual), mas eu nunca havia compreendido o quão triste é essa constatação até olhar para o meu bebê e me dar conta do tamanho das expectativas que a sociedade coloca sobre ele, por ser um menino e do quanto isso também é cruel.

Como militante, estou careca de saber que a socialização machista traz a nós mulheres consequências incomparáveis e infinitamente maiores do que aos homens, mas era no meu bebezinho que eu estava pensando e em como fazer dele um homem minimamente decente, livre para ser quem ele é, livre para simplesmente ser e, de quebra, não ser um b*&ˆ% com mulheres.

De todas as formas de opressão, o machismo talvez seja das mais perversas justamente por subjugar oprimidas e opressores.

Além de ser capaz de perpassar absolutamente todas as classes sociais, raças e etnias. O machismo é tão estrutural e encralacado que é até difícil visualizar com profundidade todas as suas faces.

No meu livro “Gestar, Parir, Amar: não é só começar. O que você sabe – e o que você deveria saber – sobre maternidade” (disponível no site da Editora Letramento, da Amazon e da Dita Livros) escrevi dois capítulos inteiros sobre como a construção da masculinidade impacta na reprodução de padrões desiguais de cuidado e, direta e indiretamente, no posicionamento de mulheres mães em suas vidas e também no mercado de trabalho.

O resultado dessa educação sexista é a formação de adultos despreparados para aceitar e/ou conviver com o que se considera diferente e homens que acreditam que, para ser um homem de verdade, é preciso apresentar características específicas ligadas a uma virilidade e masculinidade que são absolutamente tóxicas e violentas para eles e para nós.

Eles perdem a possibilidade e o direito de criarem laços e conexões de afeto pautadas no toque, na amorosidade e de realmente se conectarem com suas emoções, o que prejudica e complexifica suas relações. Isso tanto no caso de casais heterossexuais quanto em relacionamentos homossexuais e também nos que não envolvem sexo e romance, como amizades e a própria paternidade.

Quantos homens relatam ter uma dificuldade imensa, às vezes um bloqueio real, em abraçar seus filhos, tocá-los e dizer “eu te amo”, simplesmente porque não aprenderam a fazer isso?

Não acho que precisamos de mais homens falando para mulheres. Eu acho mesmo que precisamos de cada vez mais mulheres (e das mais diversas) falando para homens. Mas precisamos também de homens falando para homens sobre as nossas pautas.

Precisamos que eles sejam parte da solução do problema que eles criaram e do qual eles são ao mesmo tempo algoz e por vezes vítimas.

Para ser lider precisa ser agressivo?

Uma outra face dessa construção tóxica de masculinidade é o formato de liderança que se perpetua há pelo menos cem anos nas empresas e no mundo corporativo em geral. É a ideia de que as pessoas separam (ou deveriam separar) seus sentimentos de seu trabalho e que para serem bons líderes elas precisam ser agressivas, carismáticas, inteligentes, mas jamais sentimentais ou emotivas. Chorar nem pensar!

Não é mera coincidência que nos ensinem a vida toda a ser exatamente o que se espera que um profissional de sucesso não seja. Já aos homens se ensina tudo, exceto o que se precisa saber para desenvolver o cuidado.

Se queremos homens que sejam pais, parceiros, que cuidem, que queiram ocupar seu espaço na divisão de tarefas, seja com o cuidado com a casa, seja com o cuidado com as pessoas (crianças, idosos, enfermos etc.), precisamos construir isso desde o berçário. Digo mais, precisamos mudar a lógica com que tratamos meninas e meninos desde a concepção.

Quero aproveitar, então, o lançamento do belíssimo “O silêncio dos homens” (sobre o qual tenho algumas problematizações estruturais que serão objeto de outra coluna, pois a boa problematização tem que ser digerida e refletida!), para indicar alguns outros materiais e conteúdos a respeito deste tema tão essencial de ser debatido na e pela sociedade como um todo. Aliás nota para participação da minha amiga Viviane Duarte que teve a ousadia de criar o Plano de Menino que, espero, em breve também traremos para Curitiba, assim como o Plano de Menina.

Plano de Menino é um projeto idealizado pela jornalista Viviane Duarte, idealizadora também do Plano de Menina, que há 3 anos vem ajudando meninas a empoderarem-se em diversas áreas de suas vidas.

No Plano de Menino, estudantes participam voluntariamente de rodas de conversa quinzenais – mediadas por psicólogos, jornalistas e advogados, entre outros profissionais – sobre temas como masculinidade, violência contra mulher, carreira, relacionamentos e o papel do homem na construção de uma sociedade com mais equidade.

 

Para assistir:

  1. The Mask You Live In – Netflix
  2. Why I’m done trying to be “man enough” – TED Justin Baldwin
  3. We believe: The Best Man Can Be – Campanha Gillette
  4. Desenhando: Masculinidade Tóxica – Quebrando o Tabu
  5. Terry Crews sobre masculinidade tóxica – Quebrando o Tabu
  6. 7 Perguntas sobre masculinidade tóxica
  7. Homem, você conversa? – Jout Jout

 

Para ouvir:

  1. Mamilos Pod #145
  2. Projeto Memoh

 

Para seguir:

  1. Papo de Homem
  2. Túlio Costódio
  3. Fred Mattos
  4. Prazer Ele

 

Para ler:

  1. Nova Geração revê masculinidade tóxica – Reportagem da Folha
  2. Eles – Vagner Amaro – Editora Malê
  3. O Mito da Masculinidade – Sócrates Nolasco – Editora Rocco

 

Fonte: Az Mina

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