Festival de Paris: 50% dos filmes brasileiros foram produzidos por mulheres

Elisa Duarte

Colaboração para Universa

19/04/2019 04h00

A escolha do público refletiu o espírito da 21ª edição Festival du Cinéma Brésilien de Paris, que exibiu 23 filmes, entre ficções e documentários entre os dias 9 e 16 de abril no cinema D’Arlequin, em Paris. E a surpresa da organização foi constatar que 50% das produções escolhidas haviam sido dirigidas por mulheres.

O voto popular deu o prêmio de melhor filme para a Deslembro, de Flavia Castro, que conta a história de uma adolescente que volta ao Brasil após a anistia ser decretada no fim dos anos 70. A noite de abertura contou com a presença de Sonia Rodrigues, filha do dramaturgo Nelson Rodrigues, que foi às lágrimas ao comentar que a história de O Beijo no Asfalto, obra escrita por seu pai nos anos 60 e adaptada para o cinema pelo diretor estreante Murilo Benício, continue tão atual.

A noite de encerramento trouxe Marighella, de Wagner Moura, em sua segunda exibição na Europa e com bilhetes esgotados já no segundo dia do Festival.

Arquivo Pessoal

Imagem: Arquivo Pessoal

“Quando começo a fazer a programação, tento fazer um panorama do cinema brasileiro atual. A programação é o resultado das preocupações políticas dos diretores e uma escolha minha também. Quando se faz uma curadoria de 23 filmes, não se pode esquecer a nossa história”, afirma Katia Adler, presidente e curadora do Festival Du Cinéma Brésilien de Paris.

“Todos os anos a gente fala sobre o Brasil, não só de problemas, mas da música brasileira, de temáticas sociais. O festival sempre é um momento de reflexão. A grande mudança desse ano é o que se passa no Brasil, é a intolerância no Brasil. O Brasil está num momento diferente, não o festival”

Veja a programação completa.

Além de difundir a cultura brasileira para os franceses que dividem as salas com os brasileiros, o Festival é a oportunidade de atualizar os expatriados sobre a produção cinematográfica do país e também de matar as saudades do Brasil.

“Já recebi depoimentos de muitas de pessoas, mas o que mais me marcou muito foi de uma senhora que veio morar em Paris com os filhos na época da ditadura. Ela me contou que traz o neto para a sala de cinema a fim de que ele conheça um pouco mais da história do Brasil, já que a família fincou raízes na capital francesa. Acho essa história muito legal, e sempre lembro dela para me dar forças pra continuar”, conta Katia.

Mais mulheres no cinema

Após 20 anos de existência, é a primeira vez que a festival conta com 50 % de sua programação com filmes realizados por mulheres. “Fui escolhendo e de repente vi que tinham muitas diretoras. Contei os filmes e a metade tinham sido rodados por mulheres. Na reta final, entraram mais DOIS filmes produzidos por homens, se não fosse isso, as mulheres teriam sido maioria. Mas acho que o fato de ter 50% já é excelente. O importante do festival é o filme, e vou sempre escolher os filmes que tocam o público.”

A conquista também é reflexo da demanda das associações do setor de audiovisual junto a Agência Nacional de Cinema (Ancine) que anunciou cotas para mulheres, negros e indígenas para os editais de produção de cinema brasileiro em 2018.

“Se hoje existem 50% de filmes de mulheres aqui no festival é porque alguém pensou nisso lá atrás. Esses editais que valorizam as mulheres, essas cotas, são importantes e devem continuar. Acho positivo que tenhamos mais olhares de mulheres no cinema”, afirma Katia, que vê os incentivos à cultura, ou a falta deles, refletirem diretamente em seu trabalho.

Além das diretoras, a programação destacou personagens femininas nos documentários Clementina, de Ana Rieper, My Name is Now – Elza Soares, de Elizabete Martins Campos, A Torre das Donzelas, de Suzanna Lira, Marcia Haydée, de Daniella Kallmann e no ficcionais Deslembro, Elis, de Hugo Prata, e Temporada, de André Novais de Oliveira (disponível na Netflix).

FONTE: UNIVERSA

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