Mulheres criam “correntes do bem” em tempos de isolamento: como ajudar?

Por Nathalia Geraldo

Ir às ruas para ter a vida habitual não faz mais parte da rotina do brasileiro. A recomendação de isolamento social é uma das principais nesses tempos da pandemia do coronavírus. Acontece que, sem trabalhar, muita gente não tem renda. E quem tem menos — como pessoas que moram em periferias ou em situações de rua — passa a ter menos ainda. Por isso, em todo o Brasil, ações coletivas e individuais geram uma verdadeira “corrente do bem” de assistência, dando alimento, itens de higiene e sugerindo medidas de cuidado da saúde mental para quem precisa.

Mulheres ouvidas por Universa resolveram colocar em prática a solidariedade. Quem pode, distribui cestas básicas. Em outras soluções, a ajuda vem pela internet.

Todas têm procurado fazer por suas comunidades o que nem sempre tem sido feito pelo Poder Público — e querem que, caso seja possível, as ideias sejam replicadas em outras partes do país. Abaixo de cada história, explicamos como ajudar as iniciativas.

Mulheres em “corrente do bem”: solidariedade na pandemia

Há 21 anos, o projeto Vida Corrida promove atividades físicas para mulheres e crianças do bairro Capão Redondo, em São Paulo (SP). Mas há pouco mais de dez dias as atividades foram suspensas, por conta do risco de contaminação pelo coronavírus.

Em contrapartida e com suporte de voluntários, a maratonista Neide Santos, fundadora do projeto, passou a distribuir mantimentos, itens de higiene, água mineral para os assistidos pela organização. A força-tarefa até agora já beneficiou 700 famílias.

“Os moradores precisam do básico. Se vamos doar um quilo de sal, de arroz, de feijão, eles fazem fila para receber. Faço política pública há todo esse tempos e sei que mais da metade da população do Capão está passando por dificuldades nestes tempos”, explica.

Atleta de corridas, Neide tem contado com a ajuda de outros esportistas, como da corredora Paula Narvaez, e com o apoio de pessoas que se identificam com o Vida Corrida para aumentar a quantidade de doações e, assim, contemplar mais pessoas que precisam de itens básicos. “Muitas corridas e maratonas foram canceladas, então, estamos recebendo os kits de água mineral que seriam dados aos participantes. Aí, tiramos fotos e colocamos nas redes sociais para as pessoas verem para onde está indo”.

Apesar de a pandemia ser uma preocupação constante, especialmente para quem mora nas favelas, Neide conta que está feliz por ver a mobilização pelo bem.

As pessoas parecem estar olhando para essa doença, que pode matar qualquer um, e refletindo: o que eu estou fazendo para mudar o mundo de alguém?

Como ajudar

O Vida Corrida tem uma vaquinha on-line — a SOS Capão Redondo contra o coronavírus. O site do projeto também tem área para doação.

Cesta básica em Florianópolis

Em Florianópolis (SC), a presidente da cooperativa de mulheres do Monte Cristo, bairro periférico da cidade, Jaqueline de Sousa Ribeiro, e a presidente da Revolução dos Baldinhos, um projeto de coleta seletiva, Cintia Cruz, reuniram uma equipe de mulheres voluntárias para garantir a distribuição de cestas básicas para a população que precisar. Além do alimento às famílias, elas divulgam informações de prevenção ao coronavírus.

Voluntárias distribuem cestas básicas compradas por meio de doação, em Florianópolis (SC) - Arquivo Pessoal

Voluntárias distribuem cestas básicas compradas por meio de doação, em Florianópolis (SC)Imagem: Arquivo Pessoal

“É uma maneira de ajudar, porque o poder público nesse momento não está dando a assistência que deveria ser um direito da população que é afetada diretamente por isso. Aqui, as famílias não têm renda nesse momento em que mais necessitam. Fora que o município nunca enxergou a favela como, de fato, integrante da sociedade”.

Mais uma vez estamos sendo excluídos das ações do Poder Público.

Desde a semana passada, já foram entregues 600 cestas básicas, que foram bancadas por empresas, instituições e pessoas físicas. As mulheres de Monte Cristo, conta Jaqueline, estão fazendo mapeamento para que a ajuda chegue a idosos, crianças, catadores de reciclagem, desempregados ou pessoas em empregos informais — que, no isolamento, acabam tendo dificuldade para trabalhar.

“Já fazíamos outras ações na comunidade, como entregar enxoval e realizar festas como um meio de lazer comunitária. Iniciamos a distribuição das cestas básicas com a pandemia”, diz Jaqueline.

A ajuda vai para quem mora no Complexo do Monte Cristo, e se estende as áreas de Coloninha e Barreiros – São José.

Como ajudar

Jaqueline e Cintia pedem ajuda para a compra de alimentos e outros itens — como leite, fralda geriátrica e produtos de higiene e limpeza. As doações são para as contas bancárias nos nomes das duas líderes.

“Existe amor em Curitiba”

Também em Curitiba, a mobilização da publicitária Luana Lara, ao lado de mais quatro amigos — Luan de Souza, Lucas Kogut, Afro Jr. e Diogo Busse — é por meio virtual.

Eles criaram a página “Existe amor em Curitiba” para centralizar pedidos de ajuda e cadastros de voluntários que podem colaborar com as ações e necessidades, entre elas, fazer as compras no supermercado para alguém que não pode sair de casa, doação de fraldas, roupas e itens de higiene.

Luana conta que a ideia do grupo, que conta com diferentes perfis de pessoas, foi reunir as iniciativas para que a onda de solidariedade aconteça de forma mais organizada. “As pessoas nem sempre se organizam para fazer acontecer, então quisemos consolidar essas ações em um lugar”.

Única mulher na equipe do “Existe amor”, a publicitária explica que manter a plataforma também é uma forma de ressignificar seu papel — e dar mais coragem às mulheres — neste tipo de ação social. “Eu tive problemas de saúde que me impediam de sair, e hoje tenho condições de fazer alguma coisa e levantar movimentos de transformação. Não quero ser a protagonista, mas quis estar nesse projeto para mostrar que nós, mulheres, também podemos estar à frente dessas ações”.

Por enquanto, a plataforma conta com 114 pedidos de ajuda, 68 redes de apoio (ou seja, projetos, ONGs e associações) cadastradas. Em contrapartida, há 188 voluntários disponíveis na plataforma.

“Eu sinto um quentinho no coração quando vejo a quantidade de voluntários e de iniciativas, tem muita gente precisando de ajuda. As pessoas não mostram, mas em Curitiba tem pobres, pessoas que perdem as coisas de casa na enchente, em situação de rua…Então, quem não pode sair de casa para ajudá-los, pode acessar os pedidos por ali”.

Como ajudar (ou pedir ajuda)

Para participar, pedindo ou oferecendo algo, basta entrar no site e preencher o formulário disponível. É necessário deixar informações de contato e detalhar o pedido.

Apoio entre vizinhos no Rio

No Rio de Janeiro (RJ), moradores da Urca ampliaram a “corrente do bem” entre eles. Tudo partiu da ideia da consultora de empresas Helen Faria que, como muitos brasileiros, se dispôs a ir ao supermercado para os idosos — que fazem parte do grupo de risco — em tempos de pandemia.

Há dez dias, a interação entre quem está no bairro migrou para o mundo virtual e foi criado o grupo “Com Unidade Urca” com mais de 190 pessoas que se dividiram em grupos menores — com categorias como “Saúde mental”, “Cursos”, “Horta comunitária” (para que os participantes se revezem no cuidado com a área).

Há pessoas que saem com os animais de estimação dos vizinhos, que dão aulas de atividades físicas e até psicólogos que estão se empenhando para cuidar dos outros.

Como ajudar

Sobre este tipo de iniciativa, a ideia é que ela seja replicada em outros condomínios, bairros e comunidades. Assim, a rede de apoio se estende enquanto durar o isolamento social.

Para tanto, siga a sugestão de Helen: monte um documento em que os moradores possam preencher com seus contatos e, a partir disso, crie um grupo no WhatsApp com as pessoas interessadas.

 

Fonte: Universa

 

 

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