Na expectativa do julgamento do ano: o caso Harvey Weinstein e o movimento #metoo

Há acontecimentos que, dada a relevância histórica, social e política, transformam radicalmente o estado das coisas. Esse é o caso do #metoo.

Mas, o que fez com que a descoberta de episódios de assédio sexual praticados por um produtor de cinema contra atrizes de Hollywood se tornasse um movimento mundial de conscientização e grito por liberdade?

Casos de abusos sexuais envolvendo homens importantes da indústria do entretenimento nunca foram novidade. Da acusação de estupro feita por uma menina de treze anos, que provocou em 1977 a fuga de Roman Polanski da Califórnia, à acusação de agressão sexual feita por dezenas de mulheres contra o comediante Bill Cosby em 2015, sem falar no escândalo Woody Allen. Sobre o próprio Harvey Weinstein, produtor todo-poderoso da Miramax, dono do “toque de Midas”, em razão da capacidade de catapultar ou arruinar carreiras, os boatos de seu comportamento assediador com mulheres também eram públicos. O atual estágio da nossa história, porém, aliado à comprovação de uma verdadeira rede (corporativa e jurídica) que proporcionou a persistência e a impunidade desses abusos, levaram o caso para além de mais um escândalo de Hollywood.

Da leitura (deliciosa!) do livro que retrata os bastidores da reportagem do New York Times de outubro de 2017, que escancarou as décadas de assédio de Harvey, vencedor do Pulitzer e que acaba de ser publicado no Brasil pela Companhia das Letras sob o título Ela Disse, extrai-se como o jornalismo investigativo, sensível às complexidades das questões de gênero, realizado por Jodi Kantor e Megan Twohey, foi determinante não somente para que a conduta predatória de Harvey viesse à tona, como também para que o poderoso esquema de silenciamento das vítimas fosse revelado.

A matéria foi possível porque as vítimas não se sentiram sozinhas e concordaram em se expor. “Não posso mudar o que aconteceu com você, mas juntas talvez possamos usar sua experiência para ajudar a proteger outras pessoas”, era uma das abordagens utilizadas pelas jornalistas para encorajar essas mulheres. Foi assim que atrizes revelaram detalhes de como Harvey as assediava e também o fato de que advogadas renomadas e especialistas na defesa dos direitos das mulheres, tais como Gloria Allred e a filha Lisa Bloom, faziam parte do esquema de acordos milionários, com cláusulas insidiosas de confidencialidade à custa do silenciamento das vítimas.

Poucos dias depois da matéria, Alyssa Milano invocou no Twitter as mulheres que tivessem sofrido abusos sexuais para compartilharem a hashtag #metoo, expressão que já vinha sendo usada pela ativista Tarana Burke desde 2006, também no contexto de apoio a vítimas de violência sexual. O movimento explodiu e, em pouco tempo, em diversos países, milhões de mulheres compartilharam em suas redes sociais experiências de assédio sexual, provocando intenso debate público sobre o comportamento predatório de homens no ambiente de trabalho.

Repercussão que demonstrou como mulheres anônimas reconheceram, naqueles abusos praticados em meio ao glamour de Hollywood, a mesma raiz de opressão dos assédios que estavam sofrendo em escritórios, consultórios e empresas em que trabalhavam. Portanto, contribuíram para o tsunami #metoo a maior conscientização das mulheres nos últimos anos, responsável por eclodir a sensação de que aquele comportamento tão naturalizado não poderia mais ser tolerado, já que é impossível falar em troca consensual de favores sexuais quando há opressão. E ela é nítida, quando se está diante de quem pode arruinar sua carreira, ameaçando seus sonhos ou até mesmo sua subsistência.

Na expectativa do julgamento de Harvey neste primeiro semestre, o que se espera é a condenação exemplar de seu comportamento criminoso. Mas não só. Que o legado do movimento #metoo seja o de ruir as estratégias de calar mulheres que sofreram qualquer violência, corporativas, jurídicas ou derivadas do próprio julgamento moral de nossa sociedade, que ainda faz com que se sintam desencorajadas a denunciar por medo, vergonha ou temor de não serem acreditadas.

Silvia Chakian é promotora de justiça, mestre em Direito Penal e autora do livro A Construção dos Direitos das Mulheres (@silvinhachakian)

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Fonte: REVISTA MARIE CLAIRE

 

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