Seis casos de abuso sexual envolvendo líderes latino-americanos (e um filipino) que você talvez não conheça

Estupros à própria enteada, um harém de meninas de 10 anos, abusos a indígenas e outros crimes sexuais foram cometidos por presidentes e ditadores do continente
Seis presidentes latino-americanos acusados de abusos sexuais (e um filipino) Foto: Agência O Globo
Seis presidentes latino-americanos acusados de abusos sexuais (e um filipino) Foto: Agência O Globo

1 — O presidente e seus estupros sistemáticos à sua enteada

Em 1998, a imagem do então ex-presidente da Nicarágua, o sandinista Daniel Ortega, foi abalada por uma denúncia feita por sua enteada, Zoilamérica Narváez Murillo. Zoilamérica afirmou que havia sido abusada sexualmente pelo padrasto desde os 12 anos de idade. Ela sustentava que os estupros haviam ocorrido sistematicamente de 1979 — quando Ortega era o todo-poderoso chefe da vitoriosa Revolução — até o fim dos anos 80.

Em 2001, a Justiça da Nicarágua considerou que a ação penal sobre a denúncia havia prescrito e Ortega salvou-se de uma condenação. Os juízes eram obedientes ao então presidente Arnoldo Alemán, que trocou favores políticos com Ortega. Zoilamérica tentou insistir. Mas, ao ver que a própria mãe, Rosario Murillo, respaldava o padrasto, partiu para o exílio.

Enquanto isso, Ortega — em sua terceira presidência — passou a usar o slogan de “Cristão, Socialista e Solidário”. Ele chegou a fazer as pazes com o líder antissandinista por excelência dos anos 80, o cardeal Miguel Obando, que oficiou seu casamento formal na igreja com Rosario em 2005.

Daniel Ortega, em 1990 Foto: Hulton Archive / Getty Images
Daniel Ortega, em 1990 Foto: Hulton Archive / Getty Images

Já em seu quarto mandato, Ortega colocou sua mulher como vice-presidente. Rosario ostenta um lado místico no cotidiano nicaraguense. Ela aparece quase todos os dias ao vivo nos quatro canais de TV de seus filhos citando a Virgem Maria e entoando fervorosamente uma série de orações.

A Nicarágua tem uma das leis mais machistas do continente, com uma série de obstáculos burocráticos para que vítimas possam realizar denúncias por violência de gênero.

2 – O pedófilo ditador e seu harém de meninas

 

Os crimes cometidos pela ditadura militar paraguaia estão sendo investigados desde os anos 90, entre os quais a tortura e desaparecimento de opositores políticos. No entanto, apenas em 2016 começaram as averiguações sobre os recorrentes estupros cometidos pela cúpula do regime do general Alfredo Stroessner, que durou de 1954 a 1989.

O principal responsável pelos abusos sexuais era o próprio ditador, que exigia um fornecimento constante de garotas virgens para si. O requisito era que as meninas deveriam ter entre 10 e 15 anos de idade.

Um dos casos investigados pela Comissão de Verdade e Justiça é o de Julia Ozorio, que tinha 12 anos quando foi sequestrada da casa de seus pais na cidade de Nova Itália pelo coronel Julián Miers, em 1968. Ela foi levada a uma chácara, onde foi escrava sexual durante dois anos. Miers era o comandante do regimento que se encarregava da guarda pessoal de Stroessner.

O ditador Alfredo Stroessner, do Paraguai, em visita a Espanha Foto: Keystone / Getty Images
O ditador Alfredo Stroessner, do Paraguai, em visita a Espanha Foto: Keystone / Getty Images

Os militares buscavam e sequestravam meninas da área rural de acordo com os “gostos” de Stroessner e seus ministros. As primeiras denúncias sobre os estupros sistemáticos do ditador paraguaio foram publicadas pelo jornal The Washington Post em 1977. Segundo os investigadores do Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da Justiça em Assunção, capital paraguaia, Stroessner estuprava em média quatro meninas por mês.

3 – Ex-humorista e atual presidente acusado de abusos a funcionárias públicas

O atual presidente da Guatemala e ex-humorista, Jimmy Morales, foi denunciado em meados deste ano por supostos abusos a duas funcionárias públicas desde que tomou posse, em 2016. A denúncia foi feita pelo ex-chanceler e analista político Edgard Gutiérrez. Segundo ele, elas eram “mulheres jovens que trabalham no setor público e que foram submetidas, contra a vontade, a atos degradantes para qualquer ser humano”.

Gutiérrez sustentou que os atos ocorreram no próprio palácio presidencial, em alguns hotéis e em repartições públicas. Porta-vozes do governo Morales indicaram que as denúncias feitas pelo ex-chanceler eram “calúnias”. No entanto, devido à falta da apresentação das mulheres supostamente abusadas, o caso foi arquivado em novembro pela Justiça da Guatemala. Gutiérrez afirmou que as vítimas não se apresentam perante os tribunais por “medo” de retaliações contra elas e suas famílias.

Morales já havia sido alvo de denúncias de abusos quando era candidato presidencial em 2015, feitas por Claudia Josefa Chávez López. Na campanha eleitoral, Morales confessou que não tinha um plano de governo e apenas dizia que “como comediante fiz a população rir, como presidente garanto que não os farei chorar”. O então candidato — que se apresentava como “outsider” da política — foi respaldado por ex-integrantes da ditadura militar dos anos 80, denunciados por torturas e massacres de civis.

A Comissão Internacional contra a Impunidade, organismo da ONU crucial para trazer à tona uma série de casos de corrupção da classe política guatemalteca (entre eles, os do antecessor de Morales, Otto Pérez Molina), começou a investigar irregularidades no financiamento da campanha do atual presidente e pediu a remoção de seu foro privilegiado. Morales decidiu expulsar os membros da Comissão e, assim, encerrar as investigações sobre sua pessoa.

4 – O bode e as borboletas

El Chivo (O Bode) era o apelido sexual do ditador de direita dominicano Rafael Trujillo, uma alusão ao “macho cabrío”, o mito do bode sempre disposto a copular com as cabras. Trujillo forçava famílias pobres a entregar suas filhas virgens para que ele as violasse.

O escritor e ensaísta argentino Tomás Eloy Martínez sustentava que Trujillo e seus filhos “exerciam o medieval direito de ‘pernada’ [expressão originada no direito que os senhores feudais reclamavam para manter relações sexuais com qualquer jovem que

fosse casar com um de seus servos antes da lua de mel do casal]. Em centenas de casos El Chivo e seu herdeiro Ramfis tomavam as filhas dos dominicanos como se fossem butins inseparáveis do poder”.

Em 1949 o ditador conheceu a jovem Minerva Mirabal, filha de latifundiários que haviam criado suas filhas como mulheres independentes e cultas. O ditador encantou-se por Minerva, mas ela (e sua família) o rejeitava. Ele ficou obcecado e organizava inúmeras recepções e festas para convidá-la. Enfurecido pela recusa dos Mirabal, Trujillo iniciou uma perseguição política e policial contra toda a família, especialmente Minerva e suas irmãs Patria, Maria Tereza e Adela, que haviam começado a realizar ações políticas contra o ditador.

As irmãs Mirabal foram presas, acusadas de conspirar contra o regime. Torturadas e estupradas, foram posteriormente liberadas. Essa liberação, porém, foi apenas uma manobra de distração da opinião pública, que começou a ficar indignada com o tratamento às jovens.

Rafael Trujillo, em 1955 Foto: Three Lions / Getty Images
Rafael Trujillo, em 1955 Foto: Three Lions / Getty Images

Tempos depois, Trujillo ordenou que elas fossem assassinadas em uma operação clássica do regime para eliminar adversários: “O acidente de estrada”. Ou seja, o carro com o opositor desgovernava-se e colidia contra algum lugar (outra maneira era jogá-los ao mar em setores nos quais abundavam tubarões).

No 25 de novembro de 1960, Patria, Minerva e Maria Tereza estavam andando de jipe com seu motorista quando foram detidas por homens de Trujillo, que as mataram com golpes de peixeiras. Na sequência, colocaram os corpos dentro do veículo e empurraram por um precipício. O dia da morte das irmãs Mirabal — apelidadas de As Borboletas — transformou-se, em 1999, no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.

5 — Ríos Montt, condenado por escravidão sexual de mulheres indígenas (e que se salvou da prisão)

No início deste ano morreu impune o mais famoso ex-ditador da Guatemala, o general Efraín Ríos Montt. Ele foi a figura mais emblemática do período entre 1960 e 1996, quando a Guatemala foi assolada por ditaduras militares e governos civis que implantaram um regime de terror no país. Durante esse período, Ríos Montt esteve apenas um ano e meio no poder (entre março de 1982 e agosto de 1983). Foi breve, mas feroz, já que se tornou notório por ser um dos tiranos mais sanguinários da América Central.

Em 2013, Ríos Montt foi julgado por genocídio de indígenas. Ele apagou do mapa 448 aldeias, com seus habitantes. Essa foi a primeira vez na história das Américas que um ex-ditador foi julgado por esse tipo de genocídio. Foi condenado a 80 anos de prisão. No entanto, em 2015, salvou-se de ir à prisão após conseguir que médicos o declarassem “mentalmente incapaz” de ir ao tribunal.

O julgamento entrou para a história mundial dos Direitos Humanos, já que trouxe à tona denúncias sobre algo que quase sempre fica esquecido nas investigações da

Justiça: a violência sexual contra as mulheres. Nele se revelou o esquema dos militares envolvidos no sistema de escravidão de mulheres da área rural do país. Elas foram escravizadas pela ditadura e grupos paramilitares para atender sexualmente os soldados, lavar roupa da tropa e cozinhar para eles.

Do total de 1.465 vítimas de torturas sexuais que apresentaram suas denúncias, 88% eram indígenas maias. As menores de idade violadas na época representam um terço das mulheres torturadas. Os maridos dessas mulheres foram assassinados pelos militares. A maioria das mulheres possui atualmente mais de 50 anos de idade e sofre graves transtornos de estresse pós-traumático.

6 — O presidente filipino que afirma que a escalada de estupros se deve à beleza das mulheres

O populista presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, declarou neste ano que o aumento dos casos de abusos sexuais na cidade de Davao (onde foi prefeito) devia-se à existência de “muitas mulheres bonitas”. Segundo o presidente filipino, “se existem muitas garotas bonitas, ocorrerão muitos estupros”. Davao tem o maior índice de violações das Filipinas. Duterte, um mulherengo confesso, é famoso por seus discursos carregados de misoginia e depreciativos.

Mas Duterte passa do verbo à ação: em junho, em um encontro público com a comunidade filipina de Seul, Coreia do Sul, ele beijou na boca uma mulher à força. Além disso, sustenta que prefere ter somente homens nos cargos ministeriais importantes. Ele afirma que as mulheres são adequadas apenas para pastas como Turismo e Educação.

O presidente filipino também ordenou que seus soldados disparassem na vagina das guerrilheiras comunistas que operam em várias áreas das Filipinas. O motivo: impedir que elas tenham filhos.

Em um discurso, o presidente também foi sarcástico com o caso de uma freira australiana que foi estuprada e assassinada em 1989 nas Filipinas. Em outro discurso, ele ofereceu 42 mulheres virgens a cada turista homem que visitasse as Filipinas.

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