Violência digital: e se fosse você?

Hysteria

Quando a gente fala em violência digital, nos vem em mente a exposição de uma foto íntima sem autorização, que outrora foi chamado de pornô de vingança e fazia circular por mensagens e grupos nudes trocados com uma pessoa específica. Mas a verdade é que esse é um problema com cara de 2012. Hoje, com o avanços das ferramentas e dos aplicativos, a violência digital ganhou contornos bem mais rebuscados e agressivos.

Sequestro da vida digital, linchamento, divulgação de informações pessoais, inscrição em sites de prostituição e uma série de ações que têm como única meta destruir a outra pessoa: é violência com requintes de crueldade.

Não à toa os números saltaram e com eles a dificuldade das vítimas de recompor sua vida. Dados do balanço anual da ONG SaferNet, que atua na defesa dos direitos humanos na rede, mostram que de 2017 para 2018 houve um aumento de 1.600% nas denúncias desse tipo de crime.

A série Vítimas Digitais, do diretor João Jardim e que estreia hoje no GNT, traz para a luz esses novos casos de violência digital. Ela inova no formato e coloca ênfase na gravidade desses episódios com DNA de crime do século 21. “São sete episódios baseados em casos reais e entrecortados por entrevistas com diversos especialistas. O resultado é dramaturgicamente potente e socialmente revelador”, afirma João, que dirigiu também as séries Liberdade de GêneroAmores Livres e Família é Família.

“A violência digital tem um aspecto silencioso que é muito cruel. Às vezes pode parecer menos grave que a violência física porque não deixa uma marca aparente, mas ela envolve uma humilhação pública e uma vergonha que fazem uma ferida muito difícil de cicatrizar”, afirma Debora Falabella, que vive Renata, uma jovem vítima do ex-namorado raivoso que sequestra sua vida digital e cria uma persona promíscua pra ela. Marcos Veras, Guta Stresser, Maitê Padilha e Luis Lobianco, entre outros, são alguns dos atores que dão vida a agressores e vítimas que poderiam ser qualquer um de nós.

As encenações são fincadas em relatos reais colhidos em um extensa pesquisa feita pela equipe da série. Histórias, em sua maioria de mulheres, que tiveram sua intimidade devassada e o curso de suas vidas alterado enquanto observam de longe o criminoso sair ileso. O Brasil teve avanços na legislação, verdade, mas ainda está distante de punir exemplarmente quem comete um crime dessa natureza. Está em cada cena o machismo incrustado na nossa sociedade que não só desvaloriza a mulher, como a culpa pelo crime sofrido.

Uma das coisas que mais chama a atenção nas histórias é a falta de acolhimento às vítimas. De comentários que pretendiam ajudar mas acabam ferindo até rompimentos de alguns familiares que não se dão conta de que estão crucificando a vítima.

E pra quem tem dificuldade de enxergar essas nuances, a série traz depoimentos de gente de peso como Gabriela Manssur, promotora de Justiça do Estado de São Paulo, Juliana Cunha, diretora da SaferNet, Beatriz Accioly Lins, antropóloga da USP, Ronaldo Lemos, idealizador do marco civil da internet, e mais 13 afiados especialistas em crimes digitais, direito, psicologia, psiquiatria, comportamento na web e direito das mulheres.

Cada vez que o caso que está sendo encenado é interrompido para que eles deem suas opiniões, é como se um desenho detalhado fosse colocado à disposição do telespectador: a culpa não é da vítima, isso é crime, somos uma sociedade que persegue mulheres livres.

São essas entrevistas que dão o caráter documental da série e justificam o nome docudrama. “Gosto do formato porque tem uma informação que vai para além da narrativa encenada e deixa bem claro a gravidade e o efeito desses crimes”, diz a atriz Mariana Nunes, que vive Tereza, uma mulher que usa as redes sociais para denunciar um estupro e sofre um grave linchamento virtual.

Vítimas Digitais é mais do que uma série de entretenimento. É uma aula sobre privacidade, direito, violência, justiça e psicologia humana nos dias de hoje, em que somos de carne, osso e dados. É um alerta e um pedido de justiça. É a exibição do crime em praça pública para demarcar o virtual como uma extensão do real e avisar que escalpelar virtualmente alguém jamais pode ser visto como um crime menor.

 

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